Publicado em 28 maio 2026 • por Emmanuelly Castro dos Santos •
O trânsito, muitas vezes visto apenas como o fluxo apressado de carros e buzinas, guarda em si um conceito fundamental: o direito de ir e vir. Para muitos, aprender a mover-se pelas ruas é um processo natural da infância. Para outros, no entanto, equilibrar-se na vida exige um pouco mais de tempo, paciência e, acima de tudo, afeto. Foi com esse olhar sensível que o Detran-MS (Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul), por meio da Diretoria de Educação para o Trânsito, deu início ao programa “Autonomia em Movimento: Formação Inclusiva para a Mobilidade Segura”.
O projeto nasce com o propósito de ampliar o alcance social das ações educativas do órgão, unindo a educação para o trânsito à metodologia inovadora da bicicleta sem pedais. A primeira grande parceria dessa jornada é com a Associação Juliano Varela, instituição que há mais de 30 anos atua promovendo desenvolvimento, inclusão e autonomia para pessoas com deficiência intelectual, autismo e síndrome de Down.

A criadora da iniciativa, Elijane Coelho, Gestora de Educação para o Trânsito do Detran-MS, explica com paixão que o foco central é o desenvolvimento da autonomia funcional, da percepção ambiental e da consciência cidadã de quem tem deficiências cognitivas e motoras. O programa atende um público com mais de 1,20m de altura, abrangendo pessoas com deficiência intelectual, Transtorno do Espectro Autista (TEA), Síndrome de Down e paralisia cerebral leve.
A proposta pedagógica ganha vida em um ambiente seguro, adaptado e controlado, utilizando cones, placas de sinalização e faixas de pedestres. As bicicletas, fornecidas pelo Detran-MS, ganharam uma nova roupagem: passaram por uma reforma e tiveram os pedais retirados com o apoio fundamental da Santana Bike Shop. O objetivo? Estimular o ganho de equilíbrio, a coordenação motora e a noção espacial antes de qualquer outra etapa.
Duas Rodas, Duas Histórias: O Encontro com a Autonomia
Atrás dos números e conceitos pedagógicos, existem corações que pulam no peito a cada centímetro avançado na bike. Conhecer o projeto é, inevitavelmente, emocionar-se com as vitórias dos futuros ciclistas.
O Voo de Bryan
Sentada na arquibancada improvisada, com os olhos brilhando de orgulho, a dona de casa Marilene Aparecida Neves observa o neto, Brayan Felipe, de 12 anos. O garoto, que tem autismo grau 1 e já pratica natação, encontrou nas bicicletas sem pedais um novo desafio.
Quando a oportunidade surgiu, a família não escondeu a empolgação. “Ela achou maravilhoso”, conta Marilene, referindo-se à mãe de Brayan. “Nossa! Daí ela me falou, né? E eu também achei maravilhoso. Eu pensei “agora ele vai aprender”. A ansiedade para ver o menino evoluir foi tanta que a avó fez questão de vivenciar a primeira conquista bem de perto, fazendo uma promessa carinhosa para a filha: “Ah, eu vou ver ele andar de bicicleta primeiro que você”.
Entre risadas, Marilene confessa que a mãe de Brayan, mesmo no trabalho, dá um jeito de acompanhar cada passo: “Minha filha está lá na reunião do trabalho, olhando escondido o vídeo dele que eu mandei”.
Embora Brayan seja um menino reservado, segundo a avó, a semente da mudança já foi plantada. A promessa da família é clara: se ele gostar da experiência, ganhará a sua própria bicicleta. “E é certeza que vai”, sorri Marilene. Ao ser questionado sobre a experiência na pista, o jovem Brayan resume seu sentimento com a pureza de poucas palavras: “Foi legal”.

O Equilíbrio de Clara
Para a assistente social aposentada Edina Francis Cardoso, ver a filha Clara na pista é a realização de um sonho que muitas vezes pareceu distante. Há anos, o maior obstáculo de Clara tem sido o equilíbrio, limitando sua independência e impedindo-a de andar sem estar apoiada em alguém.

“Já houve muitas tentativas”, desabafa Edina. “A gente já buscou várias pessoas que a gente tinha informação que conseguia ensinar, mas nada dava certo por conta do equilíbrio. E é uma grande frustração para a Clara, porque ela quer andar na rua, né?” Como alternativa, a família recorria a um triciclo no Parque dos Poderes, mas Clara sempre desejou algo mais profundo: ela queria a verdadeira sensação de liberdade que só uma bicicleta tradicional pode proporcionar.
No Juliano Varela, a união do trabalho do professor Anchieta, focado no equilíbrio, com o fortalecimento muscular conduzido pelo profissional Leonardo, começou a operar pequenos milagres diários na via de Clara, conta Edina. “Hoje ela já está independente para entrar e sair da escola, coisa que no início ela precisava de apoio”, relata a mãe, emocionada com o acolhimento da equipe.
Para Edina, o horizonte agora está cheio de esperança: “Se a gente chegar no final do tempo dela do projeto ela conseguindo andar de bicicleta, vai ser a maior realização da Clara”.
Mais que um Sonho: Inclusão Social e Mobilidade Urgente
Para Michele Cruz, coordenadora da Associação Juliano Varela, o “Autonomia em Movimento” vai muito além de uma atividade de lazer, trata-se de uma resposta humanizada para famílias que enfrentam barreiras severas no cotidiano.
“A gente tá muito empolgado com essa parceria com o Detran. Porque andar de bicicleta, para muitos, é um sonho de infância. Mas para outros, nossos alunos, que são neurodivergentes, que tem pessoas com síndrome de Down, autistas, deficiente intelectual, é mais do que uma brincadeira de criança, é um sonho”, afirma Michele.
Ela ainda ressalta que o impacto do projeto toca diretamente na realidade financeira e na dignidade de muitas famílias em situação de vulnerabilidade social. “Muitas famílias possuem na bicicleta seu principal ou único meio de transporte. Tem muitas famílias que vivem em vulnerabilidade social e a bicicleta é o único meio de transporte para ir e vir. Então, hoje a gente vai proporcionar para essas famílias que possam ter esse acesso, de poder se locomover, vir às terapias, porque o transporte público, ele é pago por essas famílias. Às vezes eles faltam na terapia por conta do financeiro mesmo. Então, além de realizar esse sonho, a gente tá proporcionando mais autonomia, que eles possam ir e vir e gerar essa confiança nos nossos alunos”, reforça a coordenadora.
A Filosofia de “Bicicletar”
A engenharia por trás do projeto baseia-se em uma premissa simples, mas revolucionária, defendida pela criadora do projeto, Elijane Coelho. Para ela, o ato de andar de bicicleta precisa ser ressignificado.
“Bom, a gente tá trazendo essa oportunidade do ensino de bicicleta para crianças neurotípicas (neurodivergentes) com alguma deficiência intelectual, enfim. E é um trabalho que funciona com uma metodologia da bicicleta sem pedais. Então, primeiro, a gente estimula o equilíbrio na bicicleta. Porque andar de bicicleta não significa necessariamente pedalar. Andar de bicicleta significa equilibrar-se sobre duas rodas em movimento. Essa é a primeira fase”, explica Elijane.
A gestora destaca o impacto global desse aprendizado na vida dos participantes, preparando-os para o mundo. “O importante nesse momento é a gente ter a compreensão dos benefícios que a bicicleta traz no desenvolvimento global da pessoa. Tanto no equilíbrio, no controle motor, nas relações sociais, na percepção de si mesmo e do mundo ao seu redor. E isso vai contribuir para um melhor desenvolvimento dessa pessoa também no trânsito, enquanto pedestre, enquanto ciclista, enquanto passageiro. Todo esse desenvolvimento colabora para que essa pessoa se sinta mais segura, tenha um comportamento mais seguro no trânsito desde já.”

Surpresa e tocada pela resposta imediata dos alunos logo na aula inaugural, Elijane não esconde a admiração: “O mais legal é que eles estão todos empolgados, animados, todos têm o sonho de bicicletar. Então, trazer essa oportunidade é muito gratificante. E, por surpresa minha, a evolução deles nesse primeiro momento já foi espetacular. Atividades que eu tinha planejado para a segunda ou terceira aula, eu já antecipei para essa primeira aula, porque eles evoluíram rapidamente.”
Maio Amarelo
O projeto criado pelo Detran-MS iniciou neste mês de maio como parte das ações do Movimento Maio Amarelo em Mato Grosso do Sul. Mas o projeto segue ao longo dos próximos meses como piloto para uma possível expansão.
A diretora de Educação de Trânsito do Detran-MS, Andréa Moringo, expressou grande otimismo com o início oficial das atividades. “É uma proposta inovadora e inclusiva. Tendo em vista que a instituição atende pessoas neuro divergentes de várias idades. Já recebem atendimentos de psicomotricidade e outras atividades motoras. A atividade da bicicleta será algo muito necessário, até mesmo pela situação socioeconômica das famílias, que usam a bicicleta como meio de locomoção, isso vai gerar autonomia, levar também regras de segurança no trânsito e o desenvolvimento de muitas habilidades para esses estudantes. Estou muito, mas muito entusiasmada com esse novo projeto”, celebrou a diretora.

Emmanuelly Castro, Comunicação Detran-MS
Fotos: Rachid Waqued